BPC/LOAS para Autismo (TEA): Como Garantir o Benefício da Criança Negado na Perícia
Se você é mãe, pai ou responsável por uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e teve o BPC/LOAS negado na perícia do INSS, saiba que você não está sozinho(a) e que existem caminhos legais para reverter essa decisão. Muitas famílias passam por essa situação, e a boa notícia é que a Justiça tem reconhecido, cada vez mais, o direito dessas crianças ao benefício assistencial.
Neste artigo, vou explicar de forma clara e prática tudo o que você precisa saber para lutar pelo direito do seu filho(a).
O Que é o BPC/LOAS e Quem Tem Direito?
O Benefício de Prestação Continuada (BPC), previsto na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS – Lei nº 8.742/93) e regulamentado pelo Decreto 6.214/2007, garante o pagamento de um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência de qualquer idade que comprove não possuir meios de se sustentar ou de ser sustentada pela família.
Isso significa que crianças com autismo (TEA) têm direito ao BPC/LOAS, desde que preencham os requisitos legais. O autismo é reconhecido como deficiência pela Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) e pela Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência).
Requisitos para a Concessão do BPC/LOAS para Crianças com TEA
Para ter direito ao benefício, é necessário cumprir dois requisitos principais:
- Requisito da deficiência: A criança deve ter diagnóstico de TEA que resulte em impedimentos de longo prazo (superior a dois anos) que limitem sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. O conceito de deficiência segue o modelo biopsicossocial, conforme a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e o art. 20, §2º, da Lei 8.742/93.
- Requisito econômico (miserabilidade): A renda mensal per capita do grupo familiar deve ser igual ou inferior a 1/4 do salário mínimo (art. 20, §3º, da Lei 8.742/93). Porém, a Justiça tem flexibilizado esse critério quando a família comprova que os gastos com tratamentos, terapias e medicamentos comprometem significativamente a renda familiar.
Atenção: O BPC/LOAS não exige contribuição ao INSS. Trata-se de um benefício assistencial, e não previdenciário. Você não precisa ter carteira assinada ou ter pago carnê do INSS.
Por Que o INSS Nega o BPC para Crianças com Autismo?
Infelizmente, a negativa na perícia médica do INSS é muito comum nos casos de TEA. Os motivos mais frequentes são:
- O perito não considera o autismo como impedimento de longo prazo: Muitos peritos avaliam apenas aspectos clínicos superficiais e não consideram as barreiras sociais enfrentadas pela criança.
- Avaliação social insuficiente: A avaliação do assistente social pode não refletir a real situação de vulnerabilidade da família.
- Documentação incompleta: A família comparece à perícia sem laudos detalhados, relatórios terapêuticos ou documentos que comprovem o grau de comprometimento da criança.
- Critério de renda rígido: O INSS aplica o critério de 1/4 do salário mínimo de forma estrita, sem considerar os gastos elevados com tratamento.
Como Reverter a Negativa do BPC/LOAS: Passo a Passo
Se o benefício do seu filho(a) foi negado, siga estes passos:
- Guarde a carta de indeferimento do INSS: Esse documento é fundamental. Nele consta o motivo da negativa e o número do requerimento (NB). Guarde-o com cuidado.
- Reúna toda a documentação médica atualizada: Providencie laudos médicos detalhados (neurologista, psiquiatra infantil, neuropediatra), relatórios de terapeutas (fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo com especialização em ABA ou outras abordagens), relatório escolar descrevendo as dificuldades da criança e receituários de medicamentos contínuos.
- Solicite laudos que descrevam as limitações funcionais: O laudo médico precisa ir além do diagnóstico (CID F84). Ele deve descrever como o autismo impacta a vida diária da criança: dificuldades de comunicação, interação social, autonomia, necessidade de supervisão constante, entre outros aspectos.
- Documente todos os gastos com tratamento: Recibos de terapias, notas fiscais de medicamentos, transporte para consultas. Isso ajuda a flexibilizar o critério de renda na via judicial.
- Considere entrar com recurso administrativo: Você pode recorrer da decisão junto ao próprio INSS, por meio do Conselho de Recursos da Previdência Social, no prazo de 30 dias após a ciência do indeferimento. Esse recurso é gratuito e pode ser feito pelo site ou aplicativo Meu INSS.
- Ingresse com ação judicial: Se o recurso administrativo também for negado, ou se você preferir ir direto à Justiça, é possível ajuizar uma ação no Juizado Especial Federal. Na Justiça, será realizada uma nova perícia médica judicial, geralmente mais detalhada e criteriosa do que a do INSS. A Justiça também fará uma análise mais ampla da condição socioeconômica da família.
Dicas Práticas para Aumentar as Chances de Aprovação
- Peça ao médico que use a linguagem do INSS: O laudo deve mencionar expressamente que o impedimento é de longo prazo (superior a 2 anos), que há barreiras à participação social e que a criança necessita de apoio contínuo de terceiros.
- Leve todos os documentos organizados à perícia: Separe os documentos em ordem cronológica, com cópias. Facilite o trabalho do perito.
- Relate o dia a dia da criança com detalhes: Na avaliação social, descreva as dificuldades reais: crises sensoriais, seletividade alimentar, dificuldade no sono, necessidade de acompanhamento integral, impossibilidade de frequentar escola sem apoio.
- Inclua o relatório escolar: Se a criança frequenta escola, peça um relatório ao professor ou coordenador descrevendo as adaptações necessárias e as dificuldades de aprendizagem e socialização.
- Não desista após a primeira negativa: A maioria dos BPC para TEA que são negados no INSS acabam sendo concedidos na Justiça. A jurisprudência brasileira é amplamente favorável.
- Atualize o CadÚnico: Manter o Cadastro Único atualizado é obrigatório para receber o BPC. Procure o CRAS do seu município para fazer ou atualizar o cadastro.
O Que a Justiça Tem Decidido Sobre o BPC para Autismo?
Os tribunais brasileiros, incluindo o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a Turma Nacional de Uniformização (TNU), vêm consolidando entendimentos muito favoráveis às crianças com TEA:
- O critério de renda de 1/4 do salário mínimo pode ser flexibilizado quando comprovados gastos elevados com saúde e tratamento (STF, RE 567.985 e RE 580.963).
- O autismo, mesmo em grau considerado leve, pode gerar direito ao BPC quando demonstradas as barreiras concretas à participação social.
- A avaliação deve ser biopsicossocial, e não apenas clínica, considerando o ambiente familiar, escolar e comunitário da criança.
Por Que Buscar Ajuda Jurídica Especializada?
Lidar com a burocracia do INSS e com a frustração de uma negativa é extremamente desgastante, especialmente para famílias que já enfrentam tantos desafios no dia a dia com o TEA. Um advogado especializado em Direito Previdenciário pode fazer toda a diferença porque:
- Analisa o caso concreto e identifica os pontos fracos do indeferimento.
- Orienta sobre a melhor documentação a ser reunida.
- Elabora a petição judicial com os fundamentos legais adequados.
- Acompanha a perícia judicial e formula quesitos técnicos que direcionam a avaliação.
- Busca a concessão do benefício com pagamento retroativo desde a data do requerimento administrativo.
Dica final: Se o BPC do seu filho(a) com autismo foi negado, não aceite a negativa como definitiva. Procure um advogado previdenciário de sua confiança o quanto antes. O tempo conta a seu favor: quanto mais cedo você agir, maiores são as chances de receber os valores atrasados desde o pedido original. Seu filho(a) tem direitos garantidos por lei, e existem profissionais preparados para ajudá-lo(a) a conquistá-los.
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